Negros rebeldes
nas Minas Gerais: a revolta dos escravos de Carrancas
(1833)
Marcos Ferreira de Andrade
1. Introdução
O processo-crime de mais de quatrocentas páginas
que o leitor terá oportunidade de visualizar
a seguir e, com um pouco de esforço e paciência,
ler algumas partes, relata a história da
maior rebelião escrava que ocorreu nas
Minas Gerais, nas fazendas da família Junqueira,
localizadas no curato de São Tomé
das Letras, freguesia de Carrancas e comarca do
Rio das Mortes. O processo-crime foi instaurado
a partir da denúncia de Gabriel Francisco
Junqueira, futuro barão de Alfenas, em
virtude das mortes de seus familiares, executadas
pelos escravos. Na cópia digitalizada disponível
neste cd-rom, o leitor poderá identificar
as várias partes que compõem um
processo criminal, tais como: autuação,
queixa/denúncia, auto de corpo delito,
inquirição das testemunhas, auto
de perguntas aos réus, juntadas, datas,
conclusões, libelo acusatório, contestação
do libelo, sentença, apelação,
recursos, etc.
Notadamente, nas partes definidas como auto de
perguntas aos réus e inquirição
das testemunhas, é possível ao historiador
reconstituir aspectos do cotidiano da escravidão
e a versão dos depoentes, na medida em
que empreenda uma análise cuidadosa das
diversas falas, buscando captar o que está
contido nas entrelinhas dos depoimentos. Embora
se trate de fontes oficiais, produzidas pelos
agentes de repressão, o que de certa forma
condiciona o tipo de informação
disponível, é possível entrever
na fala dos implicados aspectos e particularidades
do seu cotidiano e das relações
sociais estabelecidas. Como afirma João
José Reis, "a história dos
dominados vem à tona pela pena dos escrivães
de polícia".
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