Histórico
do Acervo de Obras Raras e Antigas da Biblioteca
Municipal Baptista Caetano D'Almeida
Em 1827 inaugurou-se a primeira Biblioteca Pública
da Província de Minas Gerais, então
denominada Livraria Pública de São
João-del Rei, por iniciativa de Baptista
Caetano d’Almeida, um rico comerciante e
político local que escreveu em 1824 ao
Presidente da Província de Minas, oferecendo-lhe
“não só a [sua] pequena Livraria,
como a Ensiclopedia methodica, Diccionario das
Artes e Agricultura, e alguãs outras interessantes
obras, que reunidas completaraõ talvez
oitocentos volumes, para principio de huã
Livraria Publica desta Villa”. Dizia oferecer
seus livros no intuito de criar “um dos
mais úteis Estabelecimentos para o aumento
da instrução da mocidade da nossa
Pátria”. Foi criado um grupo de subscritores
para que se pudesse manter a instituição.
Eram noventa assinantes que concorreram com “ações”,
mas nem todos pagaram a quantia prometida e, logo
no primeiro ano, praticamente todos desistiram
da idéia. Além da doação
inicial de Baptista Caetano, outros subscritores
contribuíram com alguns volumes. O viajante
britânico Robert WALSH, durante sua estadia
em São João del-Rei, em 1828, afirmou
que o acervo era constituído de aproximadamente
mil volumes e que se encontrava instalado em uma
das salas da Câmara Municipal. A biblioteca
ficava aberta das nove da manhã à
uma da tarde e em seu interior os livros ficavam
“dispostos ao longo das paredes, numa sala
bem arrumada, com uma mesa de leitura no centro”.
Havia livros publicados em português, espanhol,
francês e inglês. Escritas em francês
estavam as obras de Voltaire, Rousseau, e Raynal,
“juntamente com outras que aparecem na fase
inicial da Revolução Francesa”
e a Enciclopédia Metódica.
Dentre os livros ingleses, cita O Revolucionário
Plutarco, Riqueza das Nações
de Smith, Geografia de Pinkenton,
O Paraíso Perdido, Viagem Sentimental
e Trials for Adultery, além dos
periódicos Chronicle e Times.
Diz ainda que todos os periódicos publicados
no Brasil “são recebidos ali e colocados
na sala de leitura”. Francisco Almeida,
irmão de Baptista Caetano, cita em correspondência
enviada à Câmara Municipal da Vila
a existência das obras completas dos seguintes
autores: Voltaire, Condillac, Mably, Raynal, Helvetius,
Diderot, Buffon, Benjamim Constant, Bentham, De
Pradt, Say e Bonin. Também as obras de
Napoleão, os Ensaios de Montaigne,
livros de história francesa, como Fastos
da Nação Franceza e Historia
da França, sem se referir a seus autores.
Um Diccionario historico dos Cultos,
as Memórias de Las Casas, Curso
de Litteratura de La Harpe, Jury Criminal,
Diccionario Francez, Millot, Historia
Universal, Spectaculo da Natureza,
Fabulas de La Fontaine, Encyclopedia
methodica Franceza e um Diccionario Historico.
Além desses, os Livros dos trabalhos da
Assemblêa nacional Franceza, Diarios
da Assemblêa Constituinte, Diarios
da Camara dos Deputados em 1826 e em 1827,
Diarios da Camara dos Senadores e outros.
De acordo com E. Bradford BURNS, as maiores doações
feitas à biblioteca foram a de Baptista
Caetano e a do Conselheiro José de Resende
Costa, que legou em testamento 120 títulos
(500 volumes), no ano de 1841. O acervo doado
por Resende Costa só chegou em São
João del-Rei em 1842, contendo muitos livros
“traçados e estragados”, como
consta numa correspondência dirigida ao
Presidente e Vereadores da Câmara Municipal
de São João del-Rei, de 1842.
Somente na década de 1980 é que
os livros publicados entre os séculos XVI
e XVIII passaram por um trabalho de catalogação,
realizado pelas professoras da Escola de Biblioteconomia
da Universidade Federal de Minas Gerais: Sônia
Conti Gomes e Marysia Malheiros Fiusa, sob a coordenação
da Profª Lucy Gonçalves Fontes. As
mesmas professoras elaboraram ainda um catálogo
parcial e preliminar dos livros publicados no
século XIX, mas que não chegou a
ser conferido e, portanto, não foi publicado.
Em 1999 as obras raras e antigas da Biblioteca
Municipal foram postas, em regime de comodato,
sob a guarda da FUNREI (Fundação
de Ensino Superior de São João del-Rei)
e transferidas para a Biblioteca do Campus
Santo Antônio dessa instituição.
Atualmente, as obras continuam sob a guarda da
agora Universidade Federal de São João
del-Rei (UFSJ). Desde então, esforços
para higienização, organização,
catalogação e classificação
das obras vêm sendo empreendidos. Após
a organização dos livros nas estantes,
foi feita uma primeira conferência dos catálogos
elaborados na década de 1980 pela professora
Lucy e logo percebeu-se que muitas obras, inclusive
do século XVIII, não haviam sido
catalogadas naquela época. No mês
de maio de 2001 foi iniciado um novo projeto,
que tem como objetivo organizar, catalogar e classificar
definitivamente todo acervo. Esse projeto, intitulado
Livros raros e antigos da Biblioteca Municipal
Baptista Caetano d’Almeida, contou
com o financiamento de diversas instituições
fomentadoras, estando sob a coordenação
técnica da Prof. Lucy Gonçalves
Fontes Hargreaves. A execução desse
trabalho visa a garantir a permanência dos
livros, o conhecimento detalhado de toda a coleção
e ainda a dar maior facilidade à localização
das obras para consulta de pesquisadores e interessados.
A primeira etapa do projeto (maio de 1999 a abril
de 2002) foi coordenada pelo Prof. Afonso de Alencastro
Graça Filho (DECIS/UFSJ) e contou com o
trabalho dos bolsistas Gisele E. Silva e Eufrásia
C. Castro (FAPEMIG), Augusto C. D. de Araújo
e Christianni C. Morais (Fundação
Vitae). A segunda etapa (maio de 2002 a setembro
de 2004) encontrou-se sob a coordenação
da Profa. Christianni C. Morais (DECED/UFSJ) e
teve a participação das bolsistas
Ana Cristina M. Dias, Gisele E. Silva (Fundação
Vitae) e Monica Ap. da Silva (VICOM/UFSJ).
As fichas das obras catalogadas constituem um
banco de dados, que contém as seguintes
entradas: sobrenome e nome do autor, título
completo do livro, datas limites, local de publicação,
editora, números de páginas ou volumes,
descrição física do livro
(seu tamanho, se é ilustrado ou ornamentado,
se possui mapas ou tabelas em encarte etc.), número
de classificação pelo Classificação
Decimal Universal (CDU), cabeçalho
de assunto em português e observações
(quantos exemplares ou volumes da obra a biblioteca
possui, se há ex libris, se faltam
páginas, se foi feita alguma pesquisa em
repertórios especializados ou consulta
a outras biblioteca pela Internet, etc.).
Seguindo as normas de catalogação
de obras raras estipuladas pelo PLANOR da Fundação
Biblioteca Nacional, a primeira providência
tomada com relação aos livros publicados
entre os séculos XVI e XVIII foi ordená-los
cronologicamente nas estantes. O Catálogo
dos livros raros e antigos da Biblioteca Pública
Baptista Caetano da década de 1980
serviu como base para uma nova catalogação,
mas foram feitas correções e acréscimos
de dados. As normas de catalogação
seguidas determinam que sejam transcritas integralmente
as folhas de rosto das obras.
No que se refere às obras publicadas no
século XIX, o primeiro passo para sua indexação
foi separá-las das publicadas no século
XX (conjunto de obras constituído pelos
182 títulos da Coleção
Brasiliana, que compõe o corpus
da biblioteca de obras raras). Em seguida, tanto
os livros do XIX quanto os do XX foram postos
nas estantes em ordem alfabética pelo sobrenome
dos autores ou, quando da ausência destes,
fez-se a entrada pelo título da obra, de
acordo com as normas do Código de Catalogação
Anglo-Americano. Todas as obras foram classificadas
e numeradas de acordo com os catálogos
definitivos.
A maioria dos títulos diz respeito a Direito,
Medicina, Religião, Literatura, mas há
espaço para outras áreas do conhecimento,
como História, Geografia, Ciências
Naturais e obras de referência, como dicionários
de diversas línguas e enciclopédias.
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